* Viviane Faustini

 

Esses dias estava lendo um artigo de uma blogueira americana que oferecia conselhos para mulheres empreendedoras. Comecei a ler o artigo sentindo um certo desconforto, pois ela começava falando sobre a “necessidade feminina” pela aprovação alheia.

Existem muitas pessoas inseguras no mundo, mas podem ser mulheres ou de qualquer outro gênero, não é mesmo? Insegurança é um sentimento chato e traiçoeiro, que às vezes nos pega de surpresa e faz nossas pernas tremerem. Para amenizar a tremedeira, muito autoconhecimento e trabalho duro para nos tornarmos mais confiantes. Existem muitas alternativas para que possamos nos tornar pessoas mais seguras e, acima de tudo, felizes. Autoconfiança pode ser construída, mas precisa de esforço. E como tudo o que demanda esforço, é só “agarrar” que vai! E isso independe de gênero, assim como qualquer pessoa pode se sentir insegura, qualquer pessoa pode tomar a decisão de transformar a sua vida para melhor.

Voltando ao artigo da tal blogueira, cheguei em um ponto onde ela dava um conselho sobre fazer investimentos, comparando nosso suado dinheiro com brócolis. Só para esclarecer, ela dizia que investir era como cozinhar brócolis, se queimar sempre dá para colocar mais um pouco.

Riscos são inerentes a qualquer investimento e com mais de 10 anos de experiência acompanhando micro e pequenas empresas posso dizer que muitas vezes investimentos mal planejados podem tornar pequenos empreendimentos inviáveis. Não sei como está o preço dos brócolis nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil se queimar ficamos sem ele no jantar.

Essa comparação me irritou profundamente e refiz mentalmente a pergunta (com tom de indignação) que me perturba sempre que leio artigos sobre empreendedorismo feminino: por que sempre tratam a nós, mulheres, como se fôssemos um bando de idiotas que entendem única e exclusivamente sobre cozinha?

Hoje em dia vejo cada vez menos mulheres com a barriga colada no fogão e cada vez mais mulheres focadas na carreira. Vejo maridos cuidando de filhos e dividindo tarefas (ok, são poucos, mas percebo isso acontecendo).

Em um mundo com tanta comida instantânea e congelada, com a Fátima Bernardes nos mostrando as “maravilhas” prontas da Seara, não cabem mais comparações deste tipo.

Muitas mulheres da minha geração dificilmente têm tempo e vontade de passar seus dias pela cozinha e vivem uma rotina de muito trabalho, de formação continuada, de dedicação à carreira ou ao próprio negócio.

Nós, mulheres do século XXI, servimos lasanha congelada e nos preocupamos com a nossa carreira e bem-estar. As mulheres de hoje almejam bem mais do que uma cozinha planejada para comandar. Queremos bem mais do que elogios na hora do jantar, queremos construir nosso legado.

Hoje queremos comandar nossas vidas, nossas carreiras, nossos negócios, nossas equipes. Na minha opinião, já passou da hora desses “escritores” verem a nós, mulheres, como simples ‘Amélias’ com cheiro de cebola nas mãos.

 

Viviane Faustini é especialista em empreendedorismo e consultora de inovação da Agência de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico de Lins (ADETEC). Está à frente dos programas “Teoria na Prática” – que tem foco em jovens que pretendem empreender ou se preparar para o mercado de trabalho e do programa “Mulheres BEM Empreendedoras”, onde ajuda empodera mulheres e as prepara para administrar seus negócios.

 

Sobre a ADETEC

A ADETEC é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, que existe desde fevereiro de 2001, e que nasceu para apoiar iniciativas no domínio das políticas públicas na cidade de Lins (SP) e região. Ela é uma associação formada por empresas privadas, centros universitários e entidades do poder público, que trabalham com o objetivo principal de executar atividades relacionadas a desenvolvimento, tecnologia, empreendedorismo e inovação.